Educação

O TEATRO NO ENSINO DA FILOSOFIA

  • Autor(es): Fabio Antônio da Silva et al.;
  • Ano: 2018
  • ISBN: 978-85-92670-58-0
  • Edição: 1
  • Páginas: 162
  • Sumário: Download
Gratuito

Sinopse

A figuração cria o mundo

Remi Schorn

A invenção da linguagem humana criou a figuração como distinção do figurado, cindiu o representado da representação e separou a realidade factual da virtual. Com a linguagem nasceram todas as demais formas de abstração responsáveis pela cultura humana nas mais diversas dimensões. O teatro é, por excelência, uma forma de linguagem capaz de atribuir significado a múltiplas dimensões do mundo. A figuração do mundo constitui a própria humanidade em muitas das suas perspectivas, não há humanidade que não seja inventada e não há invenção com significado que não figure uma face da realidade. Enquanto o significado é decorrente da lógica que o uso da linguagem requer para permitir mostrar a figuração aos interlocutores, o figurado está disponível em sua lógica própria de mundo. Assim, os estados de coisas, as experiências, os fatos não detêm existência senão na sua apreensão por formas de linguagem que os retiram da condição de passividade e os colocam em movimento de significação. Desta forma podemos entender a criação das obras de ficção e, também, das obras científicas. Os significados decorrentes da interação de linguagem e mundo na figuração, entretanto, são tanto objetivos como subjetivos e, nessa condição, redundam em pensamentos distintos, em diferentes participantes da atividade. Quando somos capazes de afirmar o sentido da figuração, temos pensamento objetivo e quando não podemos afirmar o sentido, recepcionamos a experiência figurativa subjetivamente, não há propriamente pensamento e sim impressões, intuições sobre o acontecimento.
Pensando em Wittgenstein, pode-se dizer que o acontecimento teatral constitui discurso daquilo que não se pode falar, daquilo que objetivamente deveríamos nos calar, daquilo que não sabemos. O teatro não conta o critério da figuração por não ter critério a priori, a encenação é criadora das condições de pensamento e fiel às condições de figuração, assim, mostra o critério como criação do humano. Toda encenação constitui uma figuração única e, assim, nova, que amplia o universo do existente e refaz a relação do humano com o mundo, pois, amplia e especifica o mundo. A figuração pode figurar o sabido, entretanto, traz consigo inumeráveis possibilidades de ampliação da significação daquilo que figura, assim, ela é muito mais do que o necessário, é a abertura à infinidade de possíveis. A figuração refaz o mundo humano ao ampliá-lo criativamente.
Dar sentido ao existente implica flertar com o sem sentido e A Tragédia Grega é o rastro dessa constituição das condições de figuração, de uma representação que ao significar se mostra brutalmente trágica, não enquanto tal e sim como ilustradora de um desenlace que se choca com os costumes e com a razoabilidade civilizatória. A tragédia só existe humanamente. Da mesma forma que o homem se propôs os temas do Bem, do Belo, do Justo e do Verdadeiro, ele pensou o Tempo como variável segundo o qual os demais podem ser resinificados. Foi Degustando Palavras que o humano se descobriu como entidade subjetiva e suscitou a existência e um segundo mundo do qual somente pode colher consequências e nunca o abordar diretamente. As consequências do eu de cada um, do inconsciente e da subjetividade humana, podem ser figurações na forma de fantoches, podem ser jogos cênicos ou, podem ser verdades objetivas a que chamamos ciências. As diferenças entre e as figurações podem ser relevantes para as áreas específicas de saber e para a atividade pedagógica, entretanto, temas como o Segundo Sexo, a opressão e mesmo o comunismo permitem abordagens esteticamente superiores quando o recurso é a encenação, relativamente às abordagens pretensamente verdadeiras. Foi isso que o Teatro em Ação se dispôs a fazer e fez de forma exemplar. Encontrar uma narrativa filosofante e encenar sua verdade literária, figurar sua essência, representar sua significação, degustar suas nuanças, enfim, teatralizar, recriar, ampliar o mundo humano.

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