Filosofia Antiga

DILECTIO: DA ANTIGUIDADE A SANTO AGOSTINHO (354-430)

  • Autor(es): OLIVEIRA Gustavo Rohte de ;
  • Ano: 2018
  • ISBN: 978-85-92670-56-6
  • Edição: 1
  • Páginas: 172
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Gratuito

Sinopse

A escolha deste tema foi motivada por questões existenciais. O amor é uma palavra que possui equivalentes em diversas línguas, sinônimos para diversos sentidos. O amor é um sentimento presente em todos os corações, às vezes machuca, às vezes cura. O amor é um termo presente em todas as religiões. O amor é uma filosofia, está na razão e na experiência.
Talvez deva se concordar com William Shakespeare (1564-1616):

O amor é dos suspiros a fumaça;
puro, é fogo que os olhos ameaça;
revolto, um mar de lágrimas de amantes...
Que mais será?
Loucura temperada, fel ingrato, doçura refinada .

Como explicar o amor? Como explicar tão sublime sentimento? Tão misteriosa bebida? Como explicar sua doçura e sua feldade? Este trabalho se desenvolve em três capítulos distintos que se completam mutuamente em um único raciocínio.
Primeiramente, considerou-se de grande importância que se soubesse quem foi o filósofo Agostinho. Nascido em 354 e falecido em 430, Agostinho é um dos grandes nomes da filosofia, foi estudante dos clássicos e conheceu a filosofia através de Cícero (106 a.C. ? 46 a.C). Chegou a frequentar ?catequeses? maniqueístas por nove anos, mas ao final desse período frustrou-se com a seita.
De estudante, passou a mestre em decorrência da morte do pai. Ensinou gramática em Tagaste e retórica em Roma. Neste período a busca pela verdade, que não tinha se realizado nem nos amores (lhe deu, porém, um filho, chamado Adeodato), nem no maniqueísmo, deu lugar ao ceticismo acadêmico. Sua crise existencial e intelectual o deixava sem bases (BROWN, 2008).
Tudo mudou quando passou a lecionar retórica em Milão, que deu possibilidade para conhecer e admirar o bispo Ambrósio (337-397), porém, sem muito valorizar seus discursos. Através de suas pregações Agostinho vence o maniqueísmo de uma vez por todas e abre espaço para a fé. Seu coração materialista, preocupado com os bens e com os amores carnais, prendia-o a si, porém, ao conhecer a doutrina neoplatônica agradou-se com a espiritualidade baseada no desprezo pelas paixões humanas. Foi com a ajuda dos neoplatônicos que Agostinho encontrou o objeto de sua busca, a verdade. Os discursos de Ambrósio, então, pareciam-lhe fazer maior sentido (AGOSTINHO, 1984).
Ambrósio tornou-se seu mestre; suas liturgias eram aulas para Agostinho; a igreja era a escola. Foi com o bispo Ambrósio que o Santo de Hipona entendeu que o homem sendo criado à imagem e semelhança de Deus era também um ser espiritual. Faltava-lhe o batismo. Porém, ainda neste período buscava um amor, desejava também o matrimônio, tinha uma noiva, mas não era possível casar-se de imediato. Seu temperamento sexual, herdado do pai, fez com que continuasse a aventurar-se nos amores.
Agostinho foi amante da carne, mas ansioso pela verdade. Seu desejo de conversão latente o deprimia. Como um homem apegado a paixões do mundo é capaz de uma hora para outra, deixar a antiga vida e renovar seu modo de viver pautando-se na vontade divina? Outra crise! Sua conversão deu-se em baixo da figueira suplicando o fim de seus impulsivos desejos carnais. Tem-se aí um coração desejoso de conversão. A resposta foi ?Toma e lê!, toma e lê? (AGOSTINHO, 1984, p. 214). Não leu senão o livro que tinha nas mãos, as Sagradas Escrituras. Leu em Rm 13,13ss: ?Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne? (AGOSTINHO, 1984, p. 214).
Após renunciar à ?cátedra da mentira? em 386, Agostinho passa férias em Cassicíaco, com sua mãe e Alípio, neste período medita os salmos. Depois de inscrito como catecúmeno, volta a Cassicíaco, para um retiro de sete meses (que lhe renderam algumas obras importantes). Foi batizado na Vigília Pascal de 387.
Como batizado, deseja fundar uma comunidade contemplativa na propriedade da sua família. Neste período de contemplação surgiram várias de suas obras, inclusive Confissões. Com a morte de sua mãe, Mônica, e de seu filho, Adeotato, e a ordenação episcopal de Alípio, fica mais uma vez sozinho no mundo e decide fundar um mosteiro. Faltava-lhe o local, procurou em Hipona, mas encontrou, senão, o sacerdócio. Fiel à Igreja, dedicou-se amorosamente ao ministério ao ponto de tornar-se, mais tarde, bispo de Hipona (ordenado em 395 como coadjutor e em 396 assume sua cátedra).
O restante de seus dias de vida, Agostinho os passou dedicando-se à Igreja de Hipona, à pregação, aos escritos contra as heresias do tempo e à vida comunitária. Até o fim de sua vida esteve ativo, escrevendo inúmeras obras. Em Retractaciones Agostinho escreveu as correções sobre alguns aspectos sobre suas obras, com uma visão mais madura.
Encontrou lugar importante nesta dissertação o exame dos pensamentos anteriores a Agostinho que lhe serviram de base; os autores estudados por ele que influenciaram a construção de seu pensamento. Os gregos certamente foram muito importantes para a formação da Filosofia Ocidental, Agostinho por sua vez, foi influenciado pelos neoplatônicos. Antes deles, é passagem quase que obrigatória, pelo pensamento mítico grego, pré-socrático e platônico.
Na mitologia grega tem-se Afrodite, nascida do duelo de pai e filho (Urano e Cronos). Cronos, em combate com seu pai, corta o pênis de Urano e joga-o para trás, caindo ao mar, fez ejacular-se pelo balanceio e gerou a deusa do amor, da beleza corporal e do sexo. O amor é também Eros, o deus grego, filho de Caos e o mais belo dos deuses (HESÍODO, 1995). Eros, na mitologia grega, é o responsável de garantir a perpetuação dos seres humanos. Transformado em uma criança alada, desajeitada que com sua flecha faz dois indivíduos serem tomados pela paixão, é o equivalente ao Cupido da mitologia romana (BRANDÃO, 1986).
Estas duas tradições remetem a dois amores distintos: Afrodite se refere à perversão, Eros se refere à pureza; no amor como força de atração e união. É puro quando dois se dão um ao outro reciprocamente, mas pervertido traz a divisão e a morte. Dessa forma, vê-se que já para os gregos o amor é o sentimento que une as coisas. A destruição, o sofrimento e a morte se dão quando uma das partes se coloca como o todo.
Na filosofia pré-socrática, o amor é um conceito tímido. Aparece expressivamente em Empédocles de Agrigento (490-435 a.C.), via nos quatro elementos (raízes) naturais o princípio de todas as coisas. A dinâmica dos corpos era regida por Amor (Philia), aquilo que unia; e Ódio (Neikos), aquilo que afastava as coisas. Retoma-se aqui a visão mitológica de Eros (PRÉ-SOCRATICOS, 1973). Note-se que o pensamento de Empédocles retoma o mito de Hesíodo.
Platão (427-374 a.C.), por sua vez, dedica um de seus diálogos somente ao tema do Amor. O Banquete é na verdade o primeiro tratado filosófico sobre o amor. Nele os convidados da festa são convidados a tecer elogios a Eros. Em todos os oradores, exceto Sócrates, tem-se profunda influência da teologia mítica grega, em Aristófanes, percebe-se uma função unitiva dos seres criados (homens) (PLATÃO, 1995).
Sócrates transforma aquilo que eram discursos individuais em um diálogo e deixa a submissão à religião de lado. Para ele, Eros não é Deus, justamente porque é desejo de perfeição e Deus é o ser perfeitíssimo e bom em sua essência. Vê-se nos gregos que é o homem quem ama, e não Deus, pois busca ser belo e bom, que se encontra somente na Filosofia.
Outro diálogo importante é Fedro que apresenta duas faces do amor. Em primeiro lugar, o amor é essencialmente desejo às coisas boas e ao prazer, quando se é desejo de prazer torna o amante um escravo de seus próprios desejos. E em segundo lugar é a busca da plenitude, ou seja, desejo pela imortalidade, que somente se alcança quando se gera filhos (procriação carnal) e quando se gera obras (procriação espiritual) que seria, em Platão, o modelo perfeito do amor, porque se liga ao Bem e ao Belo numa contemplação das formas Eternas que dão asas ao homem.
Plotino (204-270), na obra Enéadas, busca responder: o amor é deus, daímon ou páthos? Justamente porque na obra platônica dá-se conta de que o amor é em dado momento um estado da alma (páthos), ora um daímon (semi-deus), ora deus, ou seja, ambos são predicados platônicos do amor. Sua contribuição do amor decorre desses três conceitos básicos e percorre toda a obra platônica (PLOTINO, 2015).
Outras contribuições importantes para o pensamento de Agostinho vieram das Sagradas Escrituras e dos autores bíblicos João e Paulo. O Apóstolo João (15-100) insere o Amor como caminho para Deus: ?quem não ama não descobriu a Deus, porque Deus é amor? (1 João 4,8), na Primeira Epístola de São João que se encontra a famosa expressão ?Deus é Amor? (1 Jo 4,8) que foi muito utilizada por Agostinho ao lado de: ?[...] quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê? (1 Jo 4, 20b).
Paulo de Tarso (5-67), por sua vez, aborda o amor como síntese da mensagem de Jesus. Em seus escritos pode-se observar o amor de Deus para com suas criaturas, o amor que as criaturas nutrem pelo Senhor e o amor fraterno, que há entre os homens.
Em terceiro lugar, no último capítulo desse trabalho, examina-se O amor na filosofia de Agostinho. A obra mais expressa que abre margem a todos os desdobramentos é In epistolam Joannis ad Parthos, tratactus decem, ou em sua tradução Comentário da Primeira Epístola de São João, escrita simultaneamente ao De Trinitate e o De Civitate Dei.
No Comentário da Primeira Epístola de São João, Agostinho utilizou três termos para se referir ao Amor, cada termo, portanto, com um sentido especial. São eles: amor, caridade e dileção. Àmor (amor) é o desejo presente no coração de todo ente humano, quando direcionado a bens (eternos ou passageiros) é Caritas (caridade), caso contrário é Cupditas (cobiça). O desejo, porém, aos bens eternos é Dilectio (dileção), se bem que caridade e dileção se confundam frequentemente nos escritos agostinianos (AGOSTINHO, 1989).
Posteriormente a pesquisa se abre para o exame de questões importantes que têm como base os conceitos de amor em Agostinho. São elas:
Questão bíblica: ?Deus dilectio est?, que incluem as distinções entre caridade divina e caridade fraterna, como cerne da vida cristã e a filosofia/teologia do amor ao próximo, pois amar o irmão é amar a Deus.
Questão eclesiológica: ?O amor e a unidade?; Agostinho usa o amor para fundamentar a pertença à comunidade cristã, mais especificadamente à comunhão com a Igreja. Se o Verbo veio ao mundo por amor, e por este amor ?morreu? na cruz, quem rompe com a comunidade eclesial, rompe com o amor de Deus. Esse foi seu argumento contra os donatistas no comentário a 1Jo (AGOSTINHO, 1989).
Estas duas primeiras questões podem parecer estritamente teológicas, mas são base para a ?questão moral? que mostra a ética agostiniana estritamente vinculada com o amor, pois ?o amor está na própria natureza humana? (MONTAGNA, 2014, p. 55), ou seja, é o próprio homem e sua vontade que chega a Deus. Na visão de Agostinho o homem naturalmente deseja conhecer a Deus e ser feliz; e aqui se lembra da primeira definição do amor como desejo. O homem deseja a Deus e a felicidade: ?a verdadeira felicidade está em Deus, isto é, só é verdadeiramente feliz quem possui a Deus? (MONTAGNA, 2014, p. 66); ?somente aquele que fez o homem, faz o homem ser feliz? (AGOSTINHO, Carta 155, § 2).
A ?questão sócio-política? entende o amor como o elemento ordenador do mundo e preceito para a política. É o amor que constitui a cidade, o objeto desse amor indica o padrão ético-social presente na população: ?Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus ? a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si ? a celeste? (AGOSTINHO, 2000, p. 1319).
Numa ?questão dogmática? sobre a Trindade, é possível compreender o esforço de Agostinho de provar a existência de um Deus trino e uno, ou seja, três pessoas e uma única substância. Essa prova requer uma imagem trinitária que explique e manifeste este mistério.
Agostinho termina por afirmar que a mais perfeita de Deus é a tríade ?amante?, ?amado? e ?amor?, observado mais perfeitamente na relação conjugal. A imutável caridade é o próprio Espírito Santo que une o amado e o amante, o Pai que exclama: ?este é o meu filho bem-amado? (Mc 9, 7) e o Filho que clama ?Abba ó Pai? (Mc 14,36). Uma das mais belas expressões de Agostinho entoa ?ó eterna verdade, verdadeira caridade e querida eternidade! És o meu Deus? (AGOSTINHO, 1989, p. 175).

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