Educação

A ATUALIDADE DAS IDEIAS DE PAULO FREIRE

  • Autor(es): CUNHA Suzi Laura da ; DELIZOICOV Nadir Castilho ; STUANI Geovana Mulinari ;
  • Ano: 2018
  • ISBN: 978-85-92670-82-5
  • Edição: 1 Edição
  • Páginas: 440
  • Sumário: Download
Gratuito

Sinopse

Foi com grande alegria que recebi o convite para prefaciar essa obra, afinal permite-me retomar o diálogo com companheiros educadores com quem tive o prazer de trabalhar durante anos, o que me traz um sentimento de orgulho e de gratidão. Buscar construir um que-fazer pedagógico comprometido com uma educação emancipatória foi o mote que nos uniu e continua nos aproximando.
Na Educação já se tornou lugar comum o conceito de práxis. O educador refletir sobre seus fazeres e recriar sua prática tornaram-se recomendações recorrentes em obras que procuram analisar os limites da prática pedagógica contemporânea, tanto à luz dos limites da aprendizagem quanto em relação ao processo formativo dos educadores. Mas, ao mesmo tempo em que o currículo da práxis parece ser um consenso nas abordagens críticas, a dinâmica pedagógica é vista como impossível de ser realizada.
Este livro é uma evidência cabal de que é possível, sim, o educador assumir-se como sujeito de seu fazer pedagógico, honrando o compromisso de reorientar seu próprio fazer a partir de um debate crítico e coletivo sobre o processo de ensino-aprendizagem. São os educadores da escola pública os protagonistas dessa transformação. O inédito viável freireano torna-se concreto ao longo das experiências e reflexões apresentadas pelos diferentes autores dos capítulos deste livro.
Organizada em cinco partes, a obra conta, ao longo de onze capítulos, a experiência pedagógica vivenciada entre 1997 e 2004 pela rede municipal de educação de Chapecó. Articulando o desenvolvimento da construção de uma proposta curricular fundamentada nos princípios da pedagogia freireana e o processo de formação permanente dos educadores envolvidos, evidencia a superação de limites recorrentes no contexto escolar da educação básica contemporânea e nos traz a possibilidade real de se efetivar uma educação humanizadora nas diferentes áreas do conhecimento científico.
A parte 1 da obra apresenta os fundamentos da pedagogia freireana no desenvolvimento do projeto político-pedagógico da Secretaria Municipal de Chapecó durante a gestão da administração popular de 1997 a 2004. Com as contribuições dos pesquisadores Paim e Slongo podemos resgatar as vozes dos sujeitos envolvidos no processo de reorientação curricular. Por seu turno, Schneider traz luz à participação dos movimentos sociais na implementação da educação popular no Município, explicitando como o processo foi inovador na formação dos educadores. Ainda na primeira parte da obra, Schilke desenvolve uma consistente articulação entre a implementação de uma política educacional democrática e o processo de construção curricular fundamentado em uma pedagogia libertadora.
Na parte 2 a ênfase está no processo de formação dos educadores. Refletindo sobre a indissociabilidade entre construção da prática pedagógica e formação profissional, Stuani, Maestrelli e Delizoicov apresentam categorias críticas para a análise do currículo fundamentado na abordagem temática freireana implementado no período, evidenciando, a partir das vozes de educadores, como um processo curricular praxiológico propicia uma mudança qualitativa na formação dos educadores. Cunha e Delizoicov, assumindo como objeto de estudo a prática pedagógica da Educação de Jovens e Adultos desenvolvidas durante a gestão, apresentam o resultado de uma pesquisa que evidencia que o trabalho coletivo, a dialogicidade e o protagonismo dos sujeitos são exigência para desencadear um processo de formação permanente dos educadores.
A parte 3 da obra dedica-se a explicitar experiências curriculares freireanas em diferentes níveis de ensino. As práticas pedagógicas vivenciadas na Educação Infantil, apresentadas por Azambuja e Rocha, na Educação do Campo em diferentes modalidades, mostradas por Valter e no âmbito de uma escola inclusiva, discutida por Pavan, são apresentadas de forma consistente e ilustrativa, demonstrando uma maneira diferente e inovadora de um fazer pedagógico transformador.
O compromisso ético-crítico com uma abordagem curricular fundamentada na epistemologia dialógica e emancipatória de Freire, a partir da assunção de temas geradores como objetos de estudo, é desenvolvido na parte 4. Nessa perspectiva, Possamai destaca a importância da metodologia da pesquisa-ação para a práxis curricular freireana e Drews apresenta os limites e as possibilidades de se organizar o ensino de História a partir de contradições presentes na realidade local.
E por último, mas não menos importante, a parte 5 aborda aspectos relacionados à arte e cultura, em que Netto analisa as articulações entre políticas de educação popular e os centros artísticos de cultura de Chapecó no período da gestão popular. Em consonância com a temática, a partir da análise de documentos publicados pela gestão educacional democrática do Município, Serena contribui com reflexões sobre a relevância do ensino da arte para o desenvolvimento de um posicionamento crítico comprometido com a emancipação dos educandos.
Merece destaque a presença da universidade durante o processo de reorientação curricular e na sistematização da obra. A participação de docentes do ensino superior de vários programas de pós-graduação trouxe inestimáveis contribuições para o resgate histórico da experiência curricular inovadora e radical vivenciada pelas escolas da rede municipal. A transversalidade da práxis permeia os relatos ao longo de todos os capítulos.
Como não reiterar meus agradecimentos pelo convite dos que, mais que colegas de profissão, são companheiros educadores, militantes pedagógicos contumazes da construção de uma sociedade ética, comprometida com a superação das desigualdades socioculturais tão arraigadas na organização de nosso país? Assim, nominalmente, obrigado Sonia, Leusa, Deise, Isabel, Geovana, Maristella, Leoni, Jairo, Cristian, Liane, Margarete, Edione, Luciane, Lizeu, entre tantos parceiros da rede municipal de Chapecó, pelos diálogos sinceros e profundos tão responsáveis pela minha formação, por me mostrarem uma nova forma de educar, concretizando no protagonismo docente a construção de uma educação dedicada à emancipação social dos desfavorecidos.
Convido o leitor a compartilhar comigo a esperança de uma educação ético-crítica que se materializa nas vozes dos autores. Apreciem essa história curricular sem moderação e aceitem o desafio de recriá-la.

Antonio Fernando Gouvêa da Silva
São Paulo, dezembro de 2017

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